Quem é quem em Dom Quixote: os vinte e quatro do esquema
Vinte e quatro personagens do romance de Cervantes num só esquema — a casa que lhe queimou os livros, os quatro apaixonados da Serra Morena, os duques que pagaram a troça e uma ínsula que não existe.
Cânone: As duas partes de Cervantes, 1605 e 1615

Em Dom Quixote quase ninguém é parente de ninguém. Há uma sobrinha, um casal de lavradores com uma filha, uns duques e um pai com a sua filha moura: é todo o sangue do livro. O resto — e é quase tudo — são relações que alguém escolheu: um escudeiro que segue um amo, um padre que queima os livros do amigo, um bacharel que se disfarça de cavaleiro para o vencer pelo bem dele. É isso que este esquema desenha, e é isso que na verdade segura o romance.
O esquema num relance
Como se lê
Cada cartão é uma personagem e cada linha uma relação em que se pode clicar. As faixas coloridas separam os lugares do livro: a casa de Alonso Quijano, a aldeia, a estalagem do caminho, a Serra Morena, o palácio dos duques, a ínsula Barataria. Onde não há parentesco, a linha diz o que é: padre que queima os livros de, ata-o pelo pulso a, finge morrer de amor por.
A casa: os que lhe queriam bem e lhe queimaram a livraria
Os quatro que mais lhe querem são os quatro que mais lhe fazem. Antónia, a sobrinha que herda, é quem propõe emparedar o quarto dos livros e dizer que um encantador os levou. A governanta entrega a chave ao padre sem saber que vai dar em fogueira. Pero Pérez, o padre, queima a biblioteca e salva das chamas justamente os livros de que ele gosta. E mestre Nicolás, o barbeiro, põe uma barba postiça feita de rabo de boi para o enganar pelo caminho. É a primeira lição do esquema: neste romance o dano vem quase sempre do carinho.
Uma aldeia inteira contra ele, pelo bem dele





Os dois que saem para a estrada
Dom Quixote é um fidalgo de aldeia que leu livros de cavalarias até se lhe secar o miolo. Sancho é o seu vizinho, lavrador, casado e com filhos, e segue-o pela promessa de uma ínsula para governar. A graça não é que um esteja louco e o outro são: é que Sancho é o único que vê os moinhos como moinhos — e vai na mesma. No fim os dois trocaram de lugar: o amo recupera o juízo e morre, e é o escudeiro que quer continuar.
O amo e o escudeiro

Don Quijote
Caballero andante

Sancho
Escudero
Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, vivia não há muito um fidalgo dos de lança em cabide.
Dulcineia, que não existe e move tudo
Os dois únicos parentes de Sancho
Teresa Pança não quer governos nem condados: quer o marido em casa. Quando lhe chega a notícia da ínsula, responde com uma carta que é das melhores páginas do livro. Sanchica, a filha, é a que o pai quer casar com um conde mal seja governador, e a quem a mãe manda esperar. É a única família inteira do romance, e está a quatro cartões de um palácio ducal.
Da filha de um lavrador a uma duquesa, em quatro passos
A Serra Morena: quatro apaixonados e um só culpado
Cardénio perdeu o juízo entre os penhascos quando o amigo casou com a sua noiva. Luscinda disse que sim com um punhal escondido no peito. Dom Fernando, filho segundo de um duque, desfaz os dois casais do livro pelo gosto de descobrir que pode. E Doroteia, filha de lavradores abastados, é a pessoa mais capaz do romance: finge-se princesa de um reino inventado, tira Dom Quixote da serra, e é ela que de facto arruma a trapalhada que Fernando fez.
Os apaixonados da Serra Morena




A que resolve o livro

Dorotea
Princesa Micomicona
Hija de labradores ricos, la persona más capaz de la novela. Se finge princesa de un reino inventado para llevarse a Don Quijote enjaulado a su aldea, y de paso recupera al hombre que le dio palabra.
Casou-se Don Fernando
O palácio: quando a troça custa dinheiro
O duque e a duquesa leram a primeira parte. É isso que os distingue de todos os outros: sabem exatamente quem é o homem que lhes chega a casa, e montam um teatro inteiro para se rirem dele. Gastam uma fortuna em criados disfarçados, numa ínsula a sério para Sancho e numa donzela, Altisidora, a quem mandam fingir-se apaixonada por um velho magro. E Sancho governa bem. É aí que a troça se lhes vira contra: o lavrador que puseram de governador para rir julga com mais senso do que eles.
Os que pagaram a brincadeira



As duas personagens que vêm de fora do livro
Roque Guinart foi um bandoleiro catalão que existiu mesmo, e Cervantes mete-o no romance com o seu próprio nome. Dom Álvaro Tarfe vem da falsa segunda parte que outro autor publicou: Cervantes rapta-o, põe-no diante do verdadeiro Dom Quixote e obriga-o a jurar perante escrivão que este é o autêntico e o outro um impostor. E Ricote, o merceeiro mourisco da aldeia de Sancho, volta a Espanha às escondidas disfarçado de peregrino depois da expulsão; a filha, Ana Félix, regressa vestida de capitão de um navio para tirar o namorado de Argel. São de 1615 e são a parte mais séria do livro.
Da história real e do livro apócrifo




As duas segundas partes
A de Cervantes (1615)
As personagens leram a primeira parte. Os duques recebem-no sabendo quem ele é, Sansón Carrasco arma-se cavaleiro duas vezes para o vencer e o mandar para casa, e Dom Quixote vai encontrando pelo caminho leitores da sua própria história. É o romance a rir-se da própria fama.
A de Avellaneda (1614)
Outro autor publicou antes a sua continuação, com um Quixote mais bruto e um Sancho comilão. Cervantes responde-lhe dentro do livro: traz dom Álvaro Tarfe, personagem dessa obra, e fá-lo declarar por escrito que o Quixote verdadeiro é o dele. Aquela linha do esquema — jura perante escrivão que não é o falso — é uma briga entre dois livros.
No fim do livro
Ainda de pé
Sancho Panza
Teresa Panza
Sanchica Panza
Antonia Quijana
El ama
Pero Pérez
Maese Nicolás
Sansón Carrasco
Dorotea
Cardenio
Luscinda
Já se foram
Don Quijote de la Mancha
Quem não está no esquema
Faltam os cabreiros, os galés um a um, e as muitas personagens das novelas intercaladas — o Curioso impertinente, o Capitão cativo, Leandra. O Dom Quixote tem mais de seiscentas personagens; aqui há vinte e quatro, escolhidas porque o livro as faz voltar: a casa, a aldeia, a estalagem, a serra, o palácio e a ínsula. Um esquema de seiscentos cartões não o lê ninguém.
Perguntas frequentes
- Quem escreveu Dom Quixote?
- Miguel de Cervantes; a primeira parte é de 1605 e a segunda de 1615.
- Quem é Sancho Pança?
- Um lavrador da aldeia de Dom Quixote e seu escudeiro, casado com Teresa e pai de Sanchica.
- Dulcineia existe?
- Não como dama. É Aldonza Lorenzo, uma lavradora do Toboso a quem Dom Quixote nunca dirige a palavra.
- Dom Quixote tem família?
- Uma sobrinha, Antónia Quijana, e uma governanta que lhe trata da casa. Filhos não tem.
- Qual é o verdadeiro nome de Dom Quixote?
- Alonso Quijano, que recupera no fim, são e prestes a morrer.
- Quem é o bacharel Sansón Carrasco?
- Um vizinho que se disfarça de cavaleiro duas vezes para o mandar para casa.
- Quem são os duques?
- Um casal nobre que acolhe os dois para se divertir à custa deles durante boa parte da segunda parte.
- Sancho chega mesmo a governar uma ínsula?
- Sim, a ínsula Barataria, dez dias, e demite-se por vontade própria.
- Porque há uma segunda parte falsa?
- Alonso Fernández de Avellaneda publicou uma continuação em 1614, e Cervantes incorporou-a na sua como inimiga.
- Isto é uma árvore de pessoas reais?
- Não. São personagens de ficção, e o quadro assinala-as como tal.