Quem é quem em Os Lusíadas: vinte e quatro num só esquema
Vinte e quatro figuras do poema de Camões num diagrama — a armada e os seus capitães, a Casa de Avis, o concílio dos deuses, o Samorim de Calecute e o gigante que é um cabo.
Cânone: O poema de 1572

Os Lusíadas tem duas famílias e uma tripulação. As famílias são a Casa de Avis, que manda a armada partir, e o Olimpo, que discute se ela chega — Júpiter com três filhos, dois deles a favor e um contra. A tripulação não é família nenhuma: são homens ligados por comando, por ofício e por medo, e é por isso que neste esquema os traços mais importantes não dizem pai nem filho, dizem Protetora da armada de, Inimigo da armada de, Gigante que amaldiçoa.
O esquema num relance
Como se lê
Cada cartão é uma figura e cada traço uma relação em que se pode clicar. As faixas de cor separam os mundos do poema: a armada e os seus capitães, a Casa de Avis, o concílio dos deuses, Calecute, os mouros da costa, o Adamastor. Veja primeiro a forma: em cima os deuses, em baixo os reis, e no meio uma fila de homens que não tem parentes em nenhum dos dois lados.
A armada: um capitão-mor, um irmão e um piloto que o poema quase não olha
Vasco da Gama sai de Belém em 1497 e é, ao mesmo tempo, o herói e o narrador de metade do livro — em Melinde conta ao rei a história de Portugal inteira. Paulo da Gama, seu irmão, capitaneia o São Rafael e é ele quem mostra ao Catual as bandeiras pintadas com os heróis portugueses. Nicolau Coelho leva o Bérrio, o navio menor e mais rápido, e foi o primeiro a voltar com a notícia. E há João de Coimbra, piloto do São Gabriel: a figura que o poema quase não olha e sem a qual nada disto acontece — quem sabe onde fica o norte quando não há costa à vista.
A armada






As armas e os barões assinalados / que da ocidental praia lusitana...
O concílio dos deuses, que decide antes de discutir
Júpiter preside e já decidiu, antes de a discussão começar, que os portugueses chegarão à Índia. Vénus protege a armada, desvia tempestades e compra o vento. Baco é o inimigo: teme perder o Oriente, que foi dele, e por isso arma o piloto traiçoeiro, os mouros de Mombaça e a desconfiança de Calecute. E Marte toma o partido de Vénus batendo com o escudo — o argumento mais curto do poema. O esquema mostra isto de um modo que a leitura esconde: os três deuses que disputam a viagem são irmãos, e o pai já lhes deu a sentença.
A protetora e o inimigo

Vênus
Deusa protetora da armada

Baco
Deus inimigo da armada
Avis: de um rei que manda matar a um rei que manda partir
Afonso IV decidiu que o amor do filho era um problema de Estado e mandou resolvê-lo: é o rei que manda matar Inês de Castro em Coimbra. Pedro I vingou-a nos que a mataram e mandou coroá-la depois de morta. Do filho de Pedro, João I, o mestre de Avis feito rei por um povo que não queria ser castelhano, desce a casa que acaba por mandar a armada — passando por João II, o Príncipe Perfeito, que explorou a costa até ao cabo e recusou o plano de Colombo, e por Dom Manuel I, que a manda partir depois de sonhar com dois rios que lhe falam do Oriente. O Infante Dom Henrique está aqui por uma razão simples: juntou pilotos, cartas e caravelas em Sagres e empurrou Portugal para o mar sem nunca navegar nele.
De Afonso IV a Dom Manuel
Os quatro mundos do poema
Dom Manuel I
Dom João II
Infante Dom Henrique
Inês
Dom Pedro I
Dom Afonso IV
Egas
Nuno Álvares
Dom João I
Júpiter
Vênus
Baco
Marte
Tétis
Vasco
Paulo
Nicolau
Fernão
Leonardo
João
Dom Manuel I
Vênus
Vasco
Paulo
O Samorim
Monçaide
O Catual
O Adamastor: um cabo que é um gigante, e que ama a mulher errada
O gigante que amaldiçoa quem passa pelo Cabo das Tormentas conta, quando Vasco lhe pergunta quem é, que foi transformado em pedra por amar uma ninfa que nunca o quis — Tétis. E Tétis é precisamente quem, mais tarde, recebe a armada na Ilha dos Amores e mostra a Vasco a máquina do mundo. É o traço mais bonito do esquema: Apaixonado sem esperança por. O monstro do meio do caminho e o prémio do fim da viagem estão ligados um ao outro, e o gigante é a montanha onde essa recusa ficou.
O oceano e o Olimpo






Calecute: a chegada, e o que lá estava à espera
O Samorim recebe a armada com festa e depois desconfia dela. O Catual, o governador, inspeciona os navios e prende Vasco em terra para forçar o desembarque das mercadorias. E Monçaide, mouro de Tunes que já negociara com portugueses, reconhece a língua no porto, ajuda a armada, explica a cidade e no fim vai-se com ela. O poema culpa Baco por tudo isto. O esquema deixa ver a versão mais simples: os mercadores que já estavam na costa tinham muito a perder com quem acabava de chegar.
Calecute



Duas histórias que o herói conta em vez de viver
Egas Moniz empenhou a própria palavra por Portugal e, quando o rei não a cumpriu, foi entregar-se com a mulher e os filhos, de corda ao pescoço. Nuno Álvares Pereira é o condestável de Aljubarrota, onde Portugal ficou independente por mais duzentos anos. Nenhum dos dois está na viagem: estão no esquema porque Vasco os conta em Melinde. Metade de Os Lusíadas é um homem a contar a história do seu país a um rei estrangeiro, e estes traços — Conta em Melinde a história de — são essa metade.
Quem volta e quem não volta
Ainda de pé
Vasco da Gama
Nicolau Coelho
Fernão Veloso
Leonardo
João de Coimbra
Monçaide
Já se foram
Paulo da Gama
Inês de Castro
O poema e a viagem
No poema
A armada é protegida por uma deusa, atacada por um deus, amaldiçoada por um gigante e premiada com uma ilha. Vasco chega, discursa, é recebido e regressa. Tudo neste esquema é essa versão.
Na viagem de 1497-1499
Partiram quatro navios e cerca de 170 homens; voltaram dois navios e perto de 55 homens, muitos deles doentes de escorbuto. O São Rafael foi queimado na costa africana e Paulo da Gama morreu na Terceira, à vista de casa. Camões conhece estes factos e escolhe o outro poema — mas o número está lá, e é a razão pela qual este esquema tem uma coluna de quem volta.
Quem não está no esquema
Faltam os reis de Melinde e de Mombaça, o piloto traiçoeiro, os doze de Inglaterra, os mártires de Ceuta e a longa galeria de reis que o Canto III atravessa em poucas estrofes. Vinte e quatro cartões, escolhidos por serem aqueles a que o poema volta: a armada, os deuses, Avis, Calecute e o cabo. Um esquema com cem nomes não se lê.
Perguntas frequentes
- Quem escreveu Os Lusíadas?
- Luís de Camões, publicado em 1572.
- De que trata Os Lusíadas?
- Da viagem de Vasco da Gama à Índia, contada com os deuses antigos a tomar partido.
- Que deuses aparecem no poema?
- Júpiter, Vénus e Marte do lado dos portugueses; Baco contra eles.
- Como estão os deuses ligados entre si?
- Pela genealogia olímpica: Júpiter é pai de Vénus, de Marte e de Baco.
- Quem é o Adamastor?
- O gigante que personifica o Cabo das Tormentas e anuncia a desgraça aos que o dobrarem.
- Vasco da Gama é uma personagem real?
- Sim. O poema é histórico na viagem e mitológico em tudo o resto.
- O que é a Ilha dos Amores?
- A recompensa que Vénus prepara para os marinheiros no canto IX.
- Quantos cantos tem o poema?
- Dez, em oitava rima.
- Quem é Inês de Castro no poema?
- A amante de D. Pedro, assassinada por ordem do rei — o episódio mais lido do canto III.
- Por que é que este quadro mistura deuses e navegadores?
- Porque o poema também o faz: a viagem acontece enquanto o Olimpo discute se ela deve acontecer.